sexta-feira, 12 de Junho de 2009

The Tubes

Esta é a minha caricatura suave do Fee Waybill dos Tubes. Podia ser um daqueles eternos adolescentes de Peniche, de pele escura e cabelo muito ondulado e muito preto, traços fenícios, que andam pela rua em passo acelerado e dizem "Na representas aí uma ganza, méneeeee?...".

Os Tubes são uma banda de culto, uma banda de elite e de inteligência desmedida, que nunca fez concessões à mediocridade. Apresentam um espectáculo de pura energia selvagem punk-rock, com todos os certificados de autenticidade e região demarcada, e conjugam teatro, ópera, dança, circo, stand-up comedy, transformismo, num delírio único e muitos furos acima da concorrência directa. Cada canção é uma ópera com encenação a preceito, uma sátira total de tudo o que caia nas redes da criatividade destes jovens, que entretanto já são avós.

Possivelmente a banda que mais se aproximou do modelo Tubes, terão sido os Blitz, no Brasil, com Evandro Mesquita e Fernanda Abreu. Em Portugal, os Ena Pá 2000 são igualmente dignos de nota.
Neste clube restrito de talento e mordacidade, Frank Zappa também é incontornável, como se diz agora, mas muito menos selvático que os Tubes. Oportunistas pré-fabricados como Marylin Manson, ao pé dos Tubes, assustam tanto como o Fantasminha Brincalhão, é claro...

Se o espectáculo dos Tubes tivesse sido apresentado como ópera, talvez não tivessem tido que suportar o moralismo imbecil de países, regiões autónomas e cidades onde foram durante muitos anos proibidos de actuar. Apenas porque punham umas dezenas de mulheres nuas no palco, e incluíam bonecas insufláveis e dildos nas suas encenações. Não entendem, os moralistas, que se trata de uma sátira. E os libertinos também não, curiosamente. Irónico a valer é terem sido banidos em Las Vegas, a capital de todos os vícios. São muito mais apreciados na Europa, e não é por acaso.

Ninguém entende. Não se julgue que são apenas as ultra-previsíveis feministas, que continuam a espumar gafanhotos à porta das salas onde os Tubes actuam, por causa das suas alusões sugestivas a mulheres amarradas e amordaçadas, em Mondo Bondage!
Mas essas nunca entenderão coisa nenhuma, e de qualquer maneira chateiam-se até com qualquer alusão a engate não lésbico...

O mundo do "engate" é, aliás, uma das presas preferidas do sentido de observação implacável dos Tubes. A "canção do bandido", cantada por um pintas numa Harley a uma boazona oxigenada, é mil vezes glosada e representada a preceito, sob diversos ângulos.


Don't Touch Me There
é um favorito de sempre...

"The smell of burning leather
as we hold each other tight
As our rivets rub together
flashing sparks into the night
At this moment of surrender darling
if you really care
Don't touch me there"

Enquanto Zappa se metia com os outros (jovens fura-vidas, betinhas e cheerleaders, gays de armário machistas, charlatães, junkies, editores discográficos, judeus, cientistas loucos, etc.), os Tubes metem-se sistematicamente connosco!
O ridículo de cada história toca-nos de muito perto, e a estrutura de cada mini-ópera passa por várias fases e abordagens sempre ambíguas. Don't Touch Me There é uma paródia, é um escaqueirar de estereótipos, e... é uma canção romântica. Os Tubes pegam com todo o à-vontade na consagrada fórmula RFM-Oceano Pacífico-Foreigner (um sucesso, também no mundo da rádio norte-americana), fazem-na em cacos, e dão show, fazendo muito melhor!
Há poucas bandas em que as palavras sejam assim, tão galvanizantes quanto a música. Aquela ideia tinha que ter aquelas palavras e aquela música. Cada canção dos Tubes é mesmo uma ópera completa, e tem tanto para dizer que pede mesmo a superprodução que lhe dedicam (ou dedicavam).

É impressionante como eles conseguem enchumaçar tanta coisa num breve espectáculo de rock´n´roll. Muita criatividade, que dava para desdobrar e fazer render. Nunca venderam muitos discos, porque a parte cénica é metade dos Tubes, e porque poucas pessoas estão dispostas a comprar um disco que as põe em causa e que as caricatura violentamente. Sobretudo na sua terra natal. Em Portugal são mais bem aceites talvez porque cultivemos mais a a auto-depreciação, e por isso gostamos de ver os outros a fazê-lo.

É o caso do mítico White Punks on Dope, muito dedicado à base de apoio original da banda, mas também aos ícones rock'n'roll estereotipados, afogados em drogas, desintoxicações e excessos de sexo, busca ansiosa de prazer, riqueza e caprichos.

Entre paredes de televisores, sempre presentes nos espectáculos, martelando temas e palavras-chave da actualidade, imagens de vários ícones perigosamente parecidos com o mítico Quay Lewd - Quay Lewd é o nome artístico da personagem, trocadilho de quaalude, um barbitúrico usado como droga recretiva e conhecido em Portugal como mandrax.

Na enésima mudança de roupa e maquilhagem, Fee Waybill aparece em palco como Quay Lewd, um palhaço incoerente e drogado, com calças de vinil prateado, boás coloridas ao pescoço, óculos mega-espalhafatosos, cabeleira loura comprida, e uns sapatos de plataforma com uns bons 50 cm! O toque de "classe" é um dildo exorbitantemente grande (às vezes passa do joelho!), metido nas justíssimas calças, numa tentativa vã e patética de parecer um apêndice natural!

Uma imagem naturalmente desagradável a vários níveis para uma audiência familiar, mas ainda mais para genuínos white punks on dope.

"I go crazy 'cause my folks are so fucking rich
Have to score when I get that rich white punk itch
Sounds real classy, living in a chateau
So lonely, all the other kids will never know
We're white punks on dope
Mom & Dad live in Hollywood
Hang myself when I get enough rope
Can't clean up, though I know I should
White punks on dope
White punks on dope"

Aconselha-se veementemente as pessoas a não perderem os Tubes, se eles actuarem perto, ou mesmo longe. As mulheres nuas, as cheerleaders, as acrobacias, as paredes de televisores, todo o circo e os cenários operáticos, deixaram de constar, devido aos altos custos/desinteresse das editoras e promotores de espectáculos, que, como é habitual, também não entendem.

Mas eles adaptaram-se, e produziram obras-primas e os seus maiores êxitos de vendas, ainda que tenham chocado o público ao aparecerem de fato completo e comportamento socialmente aceitável! Uma verdadeira caricatura da caricatura que são os Tubes!

É de aproveitar, também, porque eles têm as suas vidas, ensinam em prestigiadas escolas de música, são consultores de fabricantes de instrumentos musicais, e estão nisto por gosto e não apenas para ganhar dinheiro. Pode dar-lhes para acabar a banda e é uma pena...

Agora devia rever o texto, mas não me apetece, e de qualquer maneira ninguém está a ler isto bla bla bla o quê senhor doutor? Se continuo a sentir-me estranho? Sim, um bocadinho, se continuar assim tomo o guronsan, sim... obrigado!

2 comentários:

Deolinda disse...

Eu li, eu li, eu li...e vou reler até consiguir respirar, nos parágrafos...
Estou ofegante...
O que o médico queria era assinar o texto... o invejoso!...:)
A propósito, o que é "guronsan"?

RockyBalbino disse...

Parabéns pela coragem :)

Resolvi armar-me em jornalista de rock'n'roll :)

Guronsan é um medicamento, apresentado sob a forma de pastilhas efervescentes com cor e sabor a laranja, que contém cafeína e mais umas coisas estimulantes e desintoxicantes. É um velho amigo de quem já andou em desintoxicação de álcool ou de narcóticos. E também dá uma mãozinha amiga nas ressacas.

Por acaso tenho aqui um tubinho em casa, porque recentemente tive uma intoxicação com Cilit Bang, um produto de limpeza abominável que me deu cabo dos pulmões.

O texto parece um espectáculo dos Tubes, mas de qualidade duvidosa :) Por isso é que eu prefiro os bonequinhos, que podem ser fracos, mas que se apreciam num relance.

Já pode informar o marido que se um dia destes abusar da cerveja, o Guronsan se vende sem receita médica ;)